José Gomes Dias Leitão

Natural de Fonte Arcada Sernancelhe, nascido em 20 de Agosto de 1936, professor licenciado do ensino secundário e ex vereador da Câmara Municipal da Maia, residente na Cidade da Maia

Creio ser o seguinte o texto mais fiel do Hino de Fonte Arcada:

Fonte Arcada, linda Terra
Como não há outra igual
Tem arte e valor
É rincão de Portugal (bis)

Com virtude e com decência
No seu seio, cresce a açucena
Da mimosa viva a cor
Dá-lhe um aspeto de terra amena (bis)

Oh quem me dera, levar esta Terra
No meu coração, quando eu partir
Amor infindo, amor sem igual
Eu lhe quero ter, até morrer

Foi autor da música e da poesia um jovem Padre Salvador, pároco de Fonte Arcada, nos anos trinta.

Com um dinamismo notável, conseguiu envolver na vida paroquial um conjunto numeroso de jovens, dos dois sexos, de Fonte Arcada, num período em que era normal os casais terem seis ou mais filhos.


Eu era muito jovem, mas apercebia-me que era uma atividade que punha algumas reservas nas pessoas erradamente "moralistas", por verem um convívio tão intenso entre tantos jovens dos dois sexos.

Era máxima do Povo "O lume ao pé da estopa, vem o diabo e . . . assopra!".

Não tive conhecimento de qualquer desvio, no correto comportamento de tantos jovens.

Tal como os Juízes, mas não sei explicar bem as razões, os párocos não estavam uma vida inteira, numa paróquia. 

Por essa razão, ele exprime esse momento, sempre difícil, em: "Oh  quem me dera, levar esta Terra, no meu coração, quando eu partir",  acrescentando um forte propósito de "Amor infindo (que nunca acaba; que não tem fim; ilimitado; infinito), amor sem igual, eu lhe quero ter, até morrer."                                                                                                                                           

No início da poesia, descreve os primeiros contactos com a nossa querida Fonte Arcada: "Fonte Arcada, linda Terra, como não há outra igual, tem arte e valor é rincão (parte cavada nos ornatos de cantaria; recanto) de Portugal."   "Da mimosa viva a cor" quer dizer que " a cor viva da mimosa, dá-lhe um aspeto de terra amena.
Da sua vocação de orientador da Juventude, em moldes cristãos, utiliza elementos figurativos como
"Decência" - dignidade; (comportamento, atitude) conformidade com aquilo que é considerado respeitável
"Açucena" - planta de flores brancas e perfumadas; num sentido figurativo: pureza, inocência

Nota: Fui recolher do Dicionário da Língua Portuguesa de uma  consagrada Editora o sentido das palavras mais figurativas desta poesia.                                                                     

Ouvi, dezenas de vezes, cartar este Hino, ao longo da minha vida de quase 82 anos, atualmente, sempre que visito o Lar de Terceira Idade de Fonte Arcada, onde, balbuciando apenas, alguns e algumas residentes, me
acompanham.
Era lindo, ver e ouvir cantá-lo, na monda dos trigais, nas vindimas, nas desfolhadas, no tascar do linho, no regresso da Romaria de Santa Eufémia. Lindas vozes o entoavam!
Também era cantado, por vozes um pouco "arrastadas", dos que, depois de pisarem, a ritmo do marcador, as uvas dos lagares, depois do "LIBARDADE, LIBARDADE, viva a LIBARDADE!", e do sempre seguido: " Libardade, Libardade, quem a tem chama-la sua, eu não tenho libardade de sair de noite à rua. 

São tão bonitas as faticeiras, são mais bonitas as carboeiras, oh que belo rancho, que bela mocidade, cantai raparigas, viva a Libardade", cantavam o Hino de Fonte Arcada, aguardando a chegada das iscas de bacalhau e de presunto, acompanhadas de um bom e fresco vinho, cenas que, durante muitos anos, presenciei no lagar da nossa Casa da Toca da Moura, em Fonte Arcada.

Tão variados cantares, com algumas palavras de sentido figurativo e um pouco "difíceis", levou a que tenham surgido várias versões do nosso Hino.

No colo de minha Mãe, aprendi-o, como o acabo de apresentar. Confio nesta versão, mas ficarei muito contente, sempre que o volte a ouvir, em qualquer versão, por tantos que, como eu, têm um "Amor infindo, amor sem
igual", "até morrer" a Fonte Arcada!

Maia, 4 de Maio de 2018
José Gomes Dias Leitão
Nascido, em Fonte Arcada, em 20 de Agosto de 1936