Festividade da Nossa Senhora da Assunção em Fonte Arcada, 2018

Fonte Arcada é uma aldeia do concelho de Sernancelhe, no distrito de Viseu, na porção norte-centro de Portugal, sub-região do Douro-Sul.
Uma aldeia portuguesa, pequeno agrupamento administrativo do mapa político português.
As aldeias correspondem ao alinhamento, pelo qual se ordena a habitação e a vizinhança no espaço rural do País. 

Em Fonte Arcada, é constituída por um núcleo de habitações bastante antigas, acercada de moradias mais recentes.
Contornando todas estas habitações, há uma paisagem de propriedades rurais, repletas de olivais, videiras e nogueiras. Terrenos menores também destinados à plantação, onde encontramos legumes e frutas da época.

Fonte Arcada encontra-se num declive montanhoso alocada num vale (do Távora), relativamente próxima à albufeira do Távora, repleta de baixadas férteis.

As casas do núcleo mais antigo, considerado histórico, foram construídas com grandes pedras e possuindo paredes muito grossas (antiga forma de produzir uma defesa contra o frio intenso do inverno).
Parte deste núcleo de casas e prédios públicos está preservado como património arquitectónico histórico. Das que são habitadas, estão decoradas com pequenos vasos de flores das mais variadas cores.

A alma da aldeia é essencialmente composta por dois largos acercados por ruas. O Largo do Pelourinho é o menor, e o Largo do Rossio e da Igreja com bastante espaço e muito acolhedor, local onde se realizam eventos sociais e religiosos, festas populares e procissões.

O santuário de Nossa Senhora da Saúde, centro de singular devoção é de extrema importância local, destino de peregrinação e romaria-festa no segundo Domingo depois da Páscoa.
Este é visível em qualquer ponto da aldeia e está adjacente ao núcleo mais alto de casas.

A festa em Honra da Nª Srª da Assunção, realizada no 15 de Agosto, é extremamente desejada, sobretudo por aqueles que passam o ano afastados pela imigração nas várias localidades do País.

As famílias da aldeia organizam-se preparando-se para o célebre dia, procurando acolher bem os visitantes. Uma boa parte destes, o grupo migrante, que se encontra espalhado essencialmente pelo país, retorna à aldeia. O parentesco é então reafirmado, bem como relações de proximidade e distância se redefinem.

Os laços afetivos e os comprometimentos morais com os grupos familiares, estimulam a participação perdurada do imigrante na vida social da aldeia. A religião além de doutrinar o homem ao plano divino, religoa-lo também à sua aldeia.

Esta festa anual é o principal veículo para a renovação do ciclo de afastamento e retorno em Fonte Arcada. Neste período de Agosto a aldeia que, durante o ano vive numa regularidade monótona, desperta com o fenómeno cíclico de visita anual dos conterrâneos.

Fonte Arcada com os vários episódios das últimas décadas da emigração e imigração, teve uma brutal redução populacional, e os habitantes residentes passaram a ser tipicamente os mais idosos. São sobretudo aposentados que emigraram e voltaram para a aldeia por diversos motivos, ou idosos que não emigraram, mas cujos filhos e outros familiares o fizeram. Na quase totalidade das famílias sente-se que são tangenciadas por alguma experiência migratória.

Fonte Arcada sobressai então neste período também pelo seu contexto festivo.
Torna-se então um verdadeiro espaço de sociabilidade, tendo como apogeu a referida festa em honra da Nossa Senhora da Assunção 
A quantidade de carros cresce quase que instantaneamente nas portas das casas e largos próximos aos dois cafés nestes dias.

A aldeia vive horas de impaciência incomparável a qualquer outro momento do ano.
Ocorre um número significativo de reencontros e a possibilidade de conviver. A partilha da vida efetiva-se pela e na festa.
É também no contexto da festa que os conjuntos de relações se atualizam e reestruturam e é colocada em movimento toda a simbologia estimada aos processos locais de valor e comunicação. As interações tornam-se particularmente densas neste contexto. É momento em que trajetórias se entrecruzam de forma surpreendente ou, seja, diversos vetores convergem e se cruzam criando o "contexto saudável".

Uma temporalidade quente, o período em que a experiência social se torna particularmente intensa com um colorido característico em que muitas coisas acontecem ao mesmo tempo.
A festa é um autêntico arraial composto de uma alternância ritualizada entre o cronograma religioso de missa, oração e procissão, e as atividades de lazer profano intervaladas.

Mais do que celebrar o dogma da Assunção no 15 de Agosto, também se encena parte da história local, e este ano com a dramatização e recontro duma cena criada no final da década dos anos 50, o Hino e Marcha de Fonte Arcada, que conquistou o primeiro lugar, entre as várias freguesias do concelho de Sernancelhe, aquando da inauguração do "Centro de Saúde".

No dia que antecipou a festa, e, aínda mais que tenho costelas de Fonte Arcada, passei a circular e ser aceite em diversos ambientes de sociabilidade.
Conheci conterrâneos, e, quando fui acompanhado pela Gininha, o Ladislau e o Sr. Padre Diamantino o tempo festivo apresentou então sua dimensão lúdica. Passei a observar que a festa institui assim, mais do que um espaço de socialização, uma temporalidade de interação.

No espaço de sociabilidade no Largo da Igreja durante esse período suscita a possibilidade de descobrir proximidades e distâncias, relações então empreendidas, entre amigos, imigrantes e residentes, sempre intensas, repleta de grupos e conversas, quase berradas porque o volume da música e a quantidade de vozes ao mesmo tempo assim exigiam.

Por vezes ouve-se uma distinção linguística que, por diversos motivos, alguns se comunicam em francês, seja porque há no grupo algum francês ou emigrante que não fale português, ou mesmo porque desejam não ser compreendidos pelos não imigrantes, prática que cessa o diálogo com os aldeões e geralmente produz algum constrangimento.

Fundamentalmente há uma construção de proximidades, uma enorme satisfação atendida pelo simples fato de se "estar junto".  E esta interação durante a festa que a mesma adquire sua dimensão lúdica em que há uma completa satisfação do momento e sua lembrança

O cortejo da descida da imagem de Nossa Senhora da Assunção parte ao final da manhã de 15 de Agosto a partir da Igreja matriz para o epicentro da aldeia.

A procissão é o evento de destaque, que atrai a participação de muitos.
As pessoas percorrem então os caminhos turtuosos do centro da aldeia a acompanhar o cortejo processional, atrás do pequeno andor e estandartes carregados por voluntarios.
Pelo caminho, o Sr Padre Diamantino reza, seguido pelos fieis que seguem lentamente a procissão.
Após ter cumprido o seu trajeto a procissão chega à Igreja, que se enche para a missa de encerramento.


Aproveitei o final da tarde e início das festividades para me ambientar com a "alma" da aldeia. Por diversas ocasiões, fui interceptado por algumas pessoas. A primeira pergunta que me interpuseram foi "Não conhecia o Sr. Doutor, médico aqui de tanta gente da aldeia", e também "é parente de quem?

A Rita, filha da Srª Dalinda, referiu, a comentar com esta frase: "esta aldeia é uma família", todos se conhecem no relacionamento de parentesco, consideração ou estima.
Já no recinto da festa, há o bailarico, a música alternando vários estilos musicais. 
O momento de maior frenesim no entanto, deu-se quando foi exibida a marcha e o hino de Fonte Arcada.
Depois, novamente o bailarico animado com toda a decoração luminosa e a frequentação do publico. Mais uma vez todos se conhecem e reconhecem, e se revelam as relações de proximidade e distância.

Durante a tarde outro momentos importantes foram sucedendo. A nobre comemoração dos 25 anos de Sacerdócio do pároco da localidade, Sr. Padre Diamantino, muito acarinhado por todos, e motor de criação de estruturas sociais do concelho de Sernancelhe.

Nenhum outro momento no ano se compara à dimensão de reunião e encontro que os ansiados dias da festa de Nª Srª da Assunção proporcionam. O que mais senti foi a grande capacidade de convergência de todos. E nisso se sente a dimensão simultaneamente lúdica e coletiva da festa, toda prática em investimento, a colocar em marcha um movimento contínuo de convergência social e firmando-se, deste modo, como fator de união porque "transforma o isolamento com consequente individualismo dos indivíduos, em formas de estar com o outro e de ser para o outro, no conceito geral de ligação e união.

E a a festa é, nos os seus vários aspectos, desde o lúdico ao religioso uma das principais divisas pelo qual o vínculo do quinhão imigrante com a aldeia então se reproduz.
A festa permanece no centro da identidade do imigrante, na cidade ou país onde recorre ao seu ganha pão.
Ademais, as relações construídas são constitutivas da vida social local e dos que vieram, criando por Fonte Arcada um sentimento nostálgico e de bem estar